sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Talvez

*Para Bárbara Elice


Talvez só um quadro branco, e pincéis e cores
As mais lindas cores
Talvez, só olhando de dentro, de dentro dos meus olhos, como se fossem teus (por um instante)
Olhando e te enxergando, com os olhos meus (mas teus)
Enxergando as cores, tuas cores
Talvez

Talvez, só se eu tivesse a suavidade nas mãos, e pincéis e cores
Talvez, só em um quadro branco, eu pudesse, talvez, tentar
Desenhar as tuas cores
Te desenhar
Talvez

Talvez só se minhas mãos tivessem a mágica
A mágica que te cerca
A mágica da qual tu és feita
Talvez só se eu fosse mágica e pudesse com minhas mãos
Te desenhar
Desenhar o sorriso que não sai da minha cabeça
Desenhar o som da tua voz, rindo
Enquanto eu me apaixono
Talvez

Talvez se eu tivesse um quadro branco, e pincéis e as cores, as mais quentes
Quentes como um quarto, e tu e eu
Naquele quarto, e um sorriso teu
Que não sai da minha cabeça

Talvez, e só talvez, se eu tivesse a suavidade nas mãos e a mágica que te cerca
Pra poder te desenhar
Pra poder te emprestar os olhos meus
Talvez
Pra tu entender
O que eu vejo
O que te cerca
Do que tu és feita
Talvez
Pra tu entender
Como és perfeita

domingo, 28 de abril de 2013

Porque não sai da cabeça, mas não se pode dizer

Põe um Motorhead pra parar de pensar, mas não consegue. O quarto já não era mais suficiente para tantas confissões. Confissões secretas, porque o amor que ali crescia não era real, não podia ser, era impossível. Mas nem era amor.

Quando a tarde já estava pegando fogo, - daquele sol de outono que vem de mansinho, aos poucos, silencioso, mas que invade casas, quartos, corpos -, naquela tarde, ele já estava pegando fogo. Quando chegou, queimou tudo. Mas não aquilo que lhe corria pela cabeça.

Da cabeça, ia para o corpo, para dentro da alma, embalado pelo som que vinha dos fones. Não, vinha do coração. Da vontade de encontrar tudo o que procurara ali, mas fora dali, em outro lugar, em outra pessoa. Porque a vida é assim, ela te dá se você desejar, mas dá errado, de brincadeira, porque a vida tem sono, tem pressa, tem senso de humor.

HAHAHA... não era engraçado. Doía. Doía porque se perdia, o que acabara de encontrar teria que ser eliminado, erradicado, posto de lado enquanto seguia. Porque seguiria, ah, seguiria. Para sempre, buscando e não encontrando, desejando e ganhando ao contrário, em outro lugar, em outra pessoa. Mas aquela pessoa...

Era tudo, era voz, era riso, era olhar... Não, não se atreveria a dizer mais, a pensar mais, a desejar mais? Porque não poderia. Jamais. O que crescia ali era apenas o sol, de outono, que vem de mansinho, aos poucos, silencioso. Mas ele queima, e invade casas, quartos, corações. Cheios de desejo, cheios de medo, cheios de... 

Dos olhos


Tanto mais para se dizer
Muito mais para esconder
Quando o arrepio vem, vem assim
sem permissão, sem perguntar, sem perdoar

A pele que resiste a tudo
Agora não resiste ao ar
Ao som, ao sol, à luz
À luz que vem de lá
Do outro lado
Da vida, do mundo, da mesa
Uma luz que poderia vir de qualquer lugar

Do meu lado, só o medo
Do lado de lá, o desejo, o arrepio
Que quando vem, vem assim
sem permissão, sem perdoar, sem querer amar
Mas ama
um amor que poderia vir de qualquer lugar
da luz que ali poderia não estar
poderia estar em qualquer lugar
em qualquer espaço
no meu espaço
mas não está.

There’s something inside you, it’s hard to explain

O som
Que vem de dentro
Do fundo da alma, de dentro do corpo
E irrompe na superfície
Se espalha pelos dedos e alcança
Se agarra àquilo que está fora
Que é falso
Que não existe
Que é impossível
O som
Que queima por dentro
Onde a batida do coração é mais forte
Quando é mais forte
Só quando está perto
Só quando te olha
Quando respira, quando sorri, quando fala
As palavras, a voz...
O som
Que vem de dentro
Que queima e confunde
Que se agarra àquilo que é falso
Que não existe, que é impossível
O desejo
Que é falso
O amor
Que não existe
Você
que é impossível
não desejar

 para ler ouvindo: Nightcall – Kavinsky & Lovefoxxx (Da trilha sonora de Drive)

sábado, 20 de agosto de 2011

A diferença entre uma latinha e o nada

Foram duas latinhas aquela noite. Duas cans geladas e gotejantes do mais puro sabor holandês. Um gole vinha e descia, devagar e intenso, preenchendo cada célula disponível de água, cevada e torpor. Simples prazer. Um gole seguido do outro e, de repente, o ambiente que já era bastante bom tornou-se um dos lugares mais interessantes do planeta. Digno de êxtase, diria. Um êxtase que há muito não se sentia.

Entre os goles cheios e as risadas, os olhares teimavam por escapar dos rostos amigos falantes. Não, eles não conseguiam deixar de olhar, olhar e marcar profundamente na memória (coração?) aqueles cabelos compridos. Era muito mais que o cabelo. O mais rápido relance da história dos amores à primeira vista (exagero) desencadeou aquela enxurrada de pensamentos, sentimentos, atrevimentos (ainda que não passassem de meros desejos de uma mente tomada pelo encantamento).

O nariz era delicado, o rosto meio moleque, o cabelo liso da cor da terra. Terra que pareceu estremecer quando seus ombros quase se encontraram (ou foram as pernas?). Não importa. O mundo tinha acabado de voltar a girar. E era colorido.

A música parecia saber de tudo que se passava naquela cabecinha delirante, e os solos da guitarra arquitetavam juntamente com os vocais e o baixo um plano para que seus desejos e devaneios se tornassem realidade. Mas não essa realidade bruta e má e mal-encarada que parecia acostumada e maliciosamente satisfeita em sabotar as expectativas alheias.

Por isso, outra lata veio. A cerveja, agora, começava a ganhar e a realidade já não parecia mais tão invencível. Quem sabe, por sorte, os olhares se encontrassem e talvez, sem timidez, pudessem trocar as palavras mais importantes que se poderia dizer naquele momento - mas perfeitamente pronunciadas sem som algum, na língua do silêncio (um dos idiomas mais lindos de que se tem notícia).

Mas os goles foram diminuindo. A música ganhando ritmo. Os pensamentos se tornando mais impensáveis. Por fim, os goles terminaram. A música, continuava. Os pensamentos, perdiam força. Mas o encantamento, esse não! O encantamento ainda estava lá, naquele cabelo, naquele rosto, nos olhos fechados enquanto a música ia criando sentido nos ouvidos e desembocando naquele corpo que dançava e cantava e existia.

Mas foram duas latinhas naquela noite. Duas latinhas que permitiram àquele coraçãozinho uma partícula de esperança apenas. Duas latinhas e nada mais. Que não viveram o suficiente para dar coragem àquelas pernas para que caminhassem na direção da felicidade, do encantamento, dos cabelos compridos. O sabor do beijo ficou na imaginação. A força das mãos e do abraço não passaram de chutes nem de longe estatísticos. A possibilidade do "tudo" ficou restrita ao universo de amostragem dos amores que poderiam ter sido, mas que não foram.

Quem sabe, talvez, se tivessem sido três latinhas, geladas e gotejantes, preenchendo cada célula disponível de água, cevada, torpor e coragem. Simples amor.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Amor, bebe essa cerveja...

publicado originalmente no jornal laboratório Zero

O cenário: Um bar razoável, mais para capenga do que razoável, mas era perto de casa. A cerveja nem era tão barata, mas a batata era boa e o garçom já era amigo. Eu, meu namorado e mais uns cinco amigos dele, todos homens, reunidos numa mesa amarela da Skol para quatro pessoas. O assunto: futebol. Mais especificamente, a Copa do Mundo.
- Pô, o Dunga se superou. Velho, o Kleberson, o Kleberson!
- É, eu não esperava outra coisa do Dunga. Mó turrão, cabeça-dura. É a seleção mais sem graça desde 90.
- Mas o Kleberson, velho. Tive que entrar naquela comunidade “Kléberson doe sua vaga”. Ele é muito ruim, velho.
- E o Ganso meu? Ele e o Neymar eram obrigação!

Ganso, Dunga... Futebol é uma coisa engraçada. É claro que eu já tinha ouvido falar no Dunga, talvez não nesse Dunga, o técnico, mas achei que não estava assim tão por fora do assunto. Numa situação dessas, em que você é a única mulher na roda e, além disso, é a namorada de um deles, você tem que mostrar que está ligada, tem que mostrar o quão boa namorada é. Imagina, além de linda e inteligente, também gosta de futebol. Foi aí que tive a grande idéia de participar da conversa:
- Amor, por que o Ronaldinho não foi convocado?
- Ah! O Dunga não gosta dele. Disse que ele não tava comprometido com a equipe. Mas eu acho – ele disse, virando-se para os demais da roda – que o Dunga tinha que chamar o Ronaldinho Gaúcho. Mesmo não jogando tudo o que pode, ele ainda é melhor do que os outros. E meu...
- Não, amor – o interrompi, tocando no braço – perguntei do Ronaldinho, o fenômeno.
- Ah! – disse ele, jogando a mão pra cima e em seguida alcançando seu copo de cerveja – o Ronaldo! É Ronaldo, não Ronaldinho. Ronaldinho é o Ronaldinho Gaúcho.
- Mas antes do Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo era chamado de Ronaldinho.
- É, mas não é mais.
- Por que não?
E, dando-me um olhar meio decepcionado, meio chocado, querendo dizer “não acredito que você tá perguntando isso”, disse:
- Aqui, amor, bebe essa cerveja.

Ok. Então talvez eu não estivesse assim tão por dentro do assunto. Na verdade, nunca dei muita importância para o futebol. A não ser aos domingos e quartas-feiras, quando meu namorado me deixa em casa e vai assistir aos jogos no Josias. “É que ele tem SporTV, amor”. Sei. Mas o fato é que, até esse momento, Neymar e Kleberson eram apenas mais uns desses jogadores com nomes estranhos. Mas a Copa do Mundo está aí, e meu namorado lá – no Josias. O jeito é arregaçar as calças e sentar a bunda na cadeira: menos de uma semana para entender tudo de futebol.

“Os centrais ou zagueiros têm a função de ajudar o guarda-redes a proteger a baliza, tentando desarmar os atacantes adversários.” Guarda-redes? Baliza? Acho que o nikkeyweb.com.br não é a melhor fonte. Wikipédia, só restou você: “Esquema tático 3-5-2: é o segundo mais utilizado atualmente. Possui um meio-campo com 2 volantes e 2 laterais avançados, sem a obrigação de marcar, sendo denominados alas. Também possui dois centroavantes que recebem bolas cruzadas na área pelos alas...” Uhum, uhum, certo, acho que entendi. Então o 3-5-2 é uma opção mais defensiva que o 4-4-2, já que tem um jogador a mais na defesa, o zagueiro, que é aquele carinha que fica mais no fundo, entre a linha do meio de campo e o gol. Os laterais foram colocados mais para frente, e nesse caso são chamados de alas. Ah, sim. O volante é o cara que faz a ligação entre a defesa e o ataque, anula as jogadas ofensivas do time adversário, sendo que para isso é importante que o jogador se garanta na marcação, mas também precisa ser bom de investida para puxar o contra-ataque.

Aos poucos, e com a ajuda de alguns amigos, as coisas começavam a fazer sentido. Então o Kleberson – volante que, no Flamengo, foi mandado para a reserva – não era tecnicamente ruim. Estava apenas numa má fase. Diferente do Hernanes, do São Paulo, que tem um chute muito bom, está numa boa fase – tanto na marcação como no apoio ao ataque – mas que o Dunga resolveu ignorar.

O cenário: o mesmo bar, mais capenga que razoável, onde a cerveja nem era tão barata, mas a batata era boa e, o garçom, amigo.
- Tô com o Josias. O Ganso era uma das melhores opções do Dunga. É um cara que tem consciência do seu papel no time, sabe? – eu disse, enquanto passava catchup na batata.
- Ah, pára! Injustiça mesmo é não chamar o Neymar. – disse meu namorado, enquanto punha os cotovelos em cima da mesa, ao redor do copo.
- Amor, não viaja. O Neymar é muito cai-cai, super imaturo, tinha mesmo que ficar de fora.
- É, mas pelo menos um o Dunga acertou. Felipe Melo é o melhor jogador dessa seleção. - disse ele.
O silêncio.
E então, olhando-o meio decepcionada, meio chocada, querendo dizer “não acredito que você tá falando isso”, eu disse:
- Aqui, amor, bebe essa cerveja.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Johnny, don't go

Johnny era assim: livre. Johnny gostava de motos, de uísque e de cigarros. Ele era assim: adorava ser livre. Johnny tinha jaqueta de couro, tatuagem de cobra e um sorriso mau, deliciosamente mau. Ele usava botas, um lenço pendurado no cinto. Johnny era assim: estava sempre de cinto. Johnny tinha uma garota. Jane. Jane era assim: linda. Johnny gostava de Jane, gostava do cheiro de Jane, gostava das pernas de Jane. Jane era assim: quente.

Um dia, Johnny acordou se sentindo estranho. Deliciosamente estranho. Beijou a nuca suave de Jane, passou a mão por sua cintura e levantou-se. No banheiro, Johnny olhou-se no espelho demoradamente, profundamente, viu-se inteiramente. Inteiramente livre. Johnny acordou Jane e disse: gata, eu tenho que ir. Jane não entendeu. “Eu preciso ir embora”. “Então vá”, disse Jane, “mas quando voltar me traga umas flores”.
E Johnny saiu.

Jane passou o dia esperando Johnny. E a noite. E o dia seguinte. E os próximos dias seguintes. Jane não entendeu. Jane gostava de Johnny. Jane chorou. Jane dormiu.

Johnny seguia a estrada, até onde a estrada fosse. Johnny gostava do vento, gostava da estrada, gostava de velocidade. Johnny era assim: amante da liberdade. Johnny conheceu Jack. Jack também gostava de motos. Juntos, Johnny e Jack conheceram o estado, marcaram cidades, amaram garotas. Juntos, eles eram assim: irresistíveis.

Johnny queria saber se Jack também havia deixado alguém. Jack disse que não, que nunca sequer tivera alguém para deixar. Johnny não entendeu. “Nunca amei alguma garota, não sei o que é amar”. Johnny disse que era incrível. Johnny sentiu saudades de Jane. Jack quis saber por que Johnny a havia deixado. Johnny disse que precisava conhecer o mundo, precisava do vento, da estrada, precisava ser livre. Jack não entendeu. “Eu queria viver intensamente.”

Jack passou a noite pensando nas palavras de Johnny. Sentiu inveja do amor de Johnny, sentiu pena de Jane, sentiu-se só. Jack era assim: um solitário. Antes de partirem para a próxima cidade, Jack perguntou a Johnny o que Jane fez quando Johnny a deixou. “Ela não percebeu a verdade. Ela disse ‘quando voltar me traga umas flores’”.

Johnny e Jack saíram juntos. Moto e moto, vento e vento, mais estrada. Johnny sorria. Jack não entendia. Johnny desafiou Jack para uma corrida. Uma garrafa de uísque para o vencedor. Mas Jack não estava interessado. Jack queria saber por que Johnny havia deixado Jane se Johnny a amava. Johnny olhou para o céu, pensou e respondeu: eu não sei. Jack ficou olhando para Johnny. Johnny continuava a olhar o céu. Lembrou-se de Jane, do cheiro de Jane, das pernas de Jane.

Johnny olhou para Jack. O desafiou novamente para uma corrida, mas agora seriam duas garrafas de uísque para o vencedor. Mas Jack não estava interessado porque Jack sentiu que finalmente entendia Johnny e Jack finalmente descobriu o que é amar. Jack amava Jane. Johnny quis saber o que havia com Jack. Jack disse que precisava ir embora. Johnny não entendeu. “Eu tenho que ir.”
E Jack partiu.

Jane acordou se sentindo estranha. Deliciosamente estranha. Olhou-se no espelho demoradamente, profundamente, viu-se inteiramente. Inteiramente livre. Jane desceu as escadas, foi para a sala e na mesa de centro estavam as flores mais lindas que já havia visto. Johnny levantou-se do sofá e foi em direção à Jane. Jane chorou, Jane sorriu. Johnny a abraçou, a beijou, olhou-a nos olhos. Olhou demoradamente, profundamente, viu-se neles inteiramente. Inteiramente.

Johnny precisava sair para guardar a moto. Quando Johnny abriu a porta, quase caiu. Quase caiu ao tropeçar em duas garrafas de uísque.
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